Ao Padre Mestre Simão Rodrigues de Azevedo
(1549)
A Graça e amor de Nosso Senhor Jesus Christo seja sempre em nosso favor e ajuda. Amen.
Somente darei conta a Vossa Reverendissima de nossa chegada a esta terra, e do que nella fizemos e esperamos fazer em o Senhor Nosso, deixando os fervores de nossa prospera viagem aos Irmãos que mais em particular a notamos.
Chegamos a esta Bahia a 29 dias do mez de Março de 1549. Andamos na viagem oito semanas. Achamos a terra em paz e quarenta e cinco moradores na povoação que antes era; receberam-nos com grande alegria e achamos uma maneira de egreja, junto da qual logo nos aposentamos os Padres e Irmãos em umas casas a par dellas, que não foi pouca consolação para nós para dizermos missas e confessarmos. E nisso nos occupamos agora.
Confessa-se toda a gente da armada, digo a que vinha nos outros navios, porque os nossos determinamos de os confessar na nau. O primeiro domingo que dissemos missa foi a quarta dominga da quadragesima (n.e. 21 de março). Disse eu missa cedo e todos os Padres e Irmãos confirmamos os votos que tinhamos feito e outros de novo com muita devoção e conhecimento de Nosso Senhor, segundo pelo exterior é licito conhecer. Eu prego ao Governador e à sua gente na nova cidade que se começa, e o padre Navarro à gente da terra. Espero em Nosso Senhor fazer-se fructo, posto que a gente da terra vive em peccado mortal, e não há nenhum que deixe de ter muitas negras das quaes estão cheios de filhos e é grande mal. Nenhum delles se vem confessar; ainda queira Nosso Senhor que o façam depois. O Irmão Vicente Rijo (n.e. aliás Rodrigues) ensina a doutrina aos meninos cada dia e tambem tem eschola de ler e escrever; parece-me bom modo este para trazer os Indios desta terra, os quaes têm grandes desejos de aprender e, perguntados si querem, mostram grandes desejos.
Desta forma ir-lhes-ei ensinando as orações e doutrinando-os na Fé até serem habeis para o baptismo. Todos estes que tratam comnosco, dizem que querem ser como nós, sinão que não têm com que se cubram como nós, e este só inconveniente têm. Si ouvem tanger à missa, já acodem e quanto nos vêm fazer, tudo fazem, assentam-se de giolhos, batem nos peitos, levantam as mãos ao Ceu e já um dos Principaes delles aprende a ler e toma lição cada dia com grande cuidado e em dous dias soube o A, B, C todo, e o ensinamos a benzer, tomando tudo com grandes desejos. Diz que quer ser christão e não comer carne humana, nem ter mais de uma mulher e outras cousas; somente que há de ir à guerra, e os que captivar, vendel-os e servir-se delles, porque estes desta terra sempre têm guerra com outros e assim andam todos em discordia, comem-se uns a outros, digo os contrarios. É gente que nenhum conhecimento tem de Deus. Têm idolos (n.e. houve erro de copia, pois os indios da costa não tinham idolos), fazem tudo quanto lhes dizem.
Trabalhamos de saber a lingua delles e nisto o padre Navarro nos leva vantagem a todos. Temos determinado ir viver com as aldeias, como estivermos mais assentados e seguros, e aprender com elles a lingua e il-os doutrinando pouco a pouco. Trabalhei por tirar em sua lingua as orações e algumas praticas de Nosso Senhor e não posso achar lingua que m'o saiba dizer, porque são elles tão brutos que nem vocabulos têm. Espero de as tirar o melhor que puder com um homem (n.e. Diogo Alvares, o Caramurú) que nesta terra se criou de moço, o qual anda agora mui occupado em o que o Governador lhe manda e não está aqui. Este homem com um seu genro (n.e. provavelmente Paulo Dias Adorno) é o que mais confirma as pazes com esta gente, por serem elles seus amigos antigos.
Tambem achamos um Principal delles já christão baptisado, o qual me disseram que muitas vezes o pedira, e por isso está mal com todos os seus parentes. Um dia, achando-me eu perto delle, deu uma bofetada grande a um dos seus por lhe dizer mal de nós ou cousa similhante. Anda muito fervente e grande nosso amigo; demos-lhe um barrete vermelho que nos ficou do mar e umas claças. Traz-nos peixe e outras cousas da terra com grande amor; não tem ainda noticia de nossa Fé, ensinamo-lh'a; madruga muito cedo a tomar lição e depois vai aos moços a ajudal-os às obras. Este diz que fará christãos a seus irmãos e mulheres e quantos puder. Espero em o Senhor que este há de ser um grande meio e exemplo para todos os outros, os quaes lhe vão já tendo grande inveja por verem os mimos e favores que lhe fazemos. Um dia comeu comnosco à mesa perante dez ou doze ou mais dos seus, os quaes se espantaram do favor que lhe davamos.
Parece-nos que não podemos deixar de dar a roupa que trouxemos a estes que querem ser christão, repartindo-lh'a até ficarmos todos eguaes com elles, ao menos por não escandalisar aos meus Irmãos de Coimbra, si souberem que por falta de algumas ceroulas deixa uma alma de ser christã e conhecer a seu Creador e Senhor e dar-lhe gloria; "ego, Pater mi, in tanto positus igne charitatis non cremor". Certo o Senhor quer ser conhecido destas gentes e communicar com elles os thesouros dos merecimentos da sua Paixão, "sicut aliquem te audivi prophetantem". E por tanto, "mi Pater, compelle multas intrare naves et venire as hanc quam plantat Dominus vineam suam". Cá não são necessarias lettras mais que para entre os Christãos nossos, porém virtude e zelo da honra de Nosso Senhor é cá mui necessario.
O padre Leonardo Nunes mando aos Ilheos e Porto seguro, a confessar aquella gente que tem nome de Christãos, porque me disseram de lá muitas miserias, e assim a saber o fructo que na terra se pode fazer. Elle escreverá a Vossa Reverendissima de lá largo. Leva por companheiro a Diogo Jacome, para ensinar a doutrina aos meninos, o que elle sabe bem fazer; eu o fiz já ensaiar na nau, é um bom filho. Nós todos tres confessaremos esta gente; e depois espero que irá um de nós a uma povoação grande, das maiores e melhores desta terra, que se chama Pernambuco (n.e. é palavra tupi já então alterada) e assim em muitas partes apresentaremos e convidaremos com o Crucificado. Esta me parece agora a maior empresa de todas, segundo vejo a gente docil. Somente temo o mau exemplo que o nosso Christianismo lhe dá, porque há homens que há sete e dez annos que se não confessam e parece-me que põem a felicidade em ter muitas mulheres. Dos sacerdotes ouço cousas feias. Parece-me que devia Vossa Reverendissima de lembrar a Sua Alteza um Vigario Geral, porque sei quem mais moverá o temor da Justiça que o amor do Senhor. E não há oleos para ungir, nem para baptisar; faça-os Vossa Reverendissima vir no primeiro navio, e parece-me que os havia de trazer um Padre dos nossos (n.e. a carencia dos oleos foi depois suprida pelo da árvore cabureiba).
Tambem me parece que mestre João aproveitaria cá muito, porque a sua lingua é similhante a esta e mais aproveitar-nos-hemos cá da sua theologia.
A terra cá achamol-a boa e sã. Todos estamos de saude, Deus seja louvado, mais sãos do que partimos.
As mais novas da terra e da nossa cidade os Irmãos escreverão largo e eu tambem pelas naus quando partirem. Crie Vossa Reverendissima muitos filhos para cá, que todos são necessarios. Eu um bem acho nesta terra que não ajudará pouco a permanecerem depois na Fé, que é ser terra grossa, e todos têm bem o que hão mister, e a necessidade lhes não fará prejuizo algum. Estão espantados de ver a magestade com que entramos e estamos, e temem-nos muito, o que tambem ajuda. Muito há que dizer desta terra; mas deixo-o ao commento dos charissimos Irmãos. O Governador é escolhido de Deus para isto, faz tudo com muito tento e siso. Nosso Senhor o conservará para reger este seu povo de Israel. "Tu autem, Pater, ora pro omnibus et presertim pro filiis quos enutristi". Lance-nos a todos a benção de Christo Jesu Dulcissimo.
Desta Bahia, 1549
* esta carta não traz mês nem dia, mas foi escrita depois de 31 de março e antes de 15 de abril.
Cartas Jesuíticas - I
Cartas do Brasil (1549-1560), de Manuel de Nóbrega
Publicações da Academia Brasileira, 1931
II - História